“É mais fácil lutar contra a ditadura do que contra a ditamole”

por Ana – Sábado, 19 de Fevereiro de 2011

É inacreditável o ódio que escorre pelas caixas de comentários das notícias relativas à manifestação marcada para dia 12 de Março, ódio pelas pessoas que querem continuar a lutar por este país. E é inacreditável o “tom” do especial informação da SIC – que é recorrentemente mencionado nestes comentários – “Geração à rasca” – que tenta passar a ideia de que os precários são todos uns meninos que querem é carros e telemóveis de última geração: “vícios de quem quer ser moderno e nem pensa na velhice” – como se o sistema de transportes públicos que temos permitisse a todos chegar ao emprego, e como se abdicando do telemóvel se resolvesse o problema do desemprego – deveríamos todos virar mórmones para fazer face à crise? Se passarmos a dormir numa tenda à porta do emprego e usamos pombos correio para comunicar, tudo ficará bem. Os recém-licenciados desempregados entrevistados vivem todos em casa de familiares. Gostava que tivessem procurado os licenciados que saíram de casa dos pais e que estão a trabalhar precariamente e a partilhar apartamentos com mais 5 ou 6 pessoas. Nem todos podem ficar em casa dos pais, mas ninguém se lembra desses.

O jornalista pergunta ao pai de um licenciado em cinema há 7 meses, que vive em casa dos pais: “Então? Não está farto deste filme? Pagaram os estudos ao menino e agora têm o menino a viver cá em casa” – coitado do “menino”, neste país não lhe valeu estar licenciado há apenas 7 meses e já ter um prémio de realização português e um sérvio… devia era ir lavar sarjetas, para saber o que é a vida, em vez de contar com a ajuda dos pais mais 2 ou 3 anos, até um dia o ICAM se lembrar que há mais talento em Portugal para além da lista de 15 ou 20 nomes que vão todos os anos buscar para atribuir financiamentos… Segue-se uma comparação das vantagens de se ser mais velho e as desvantagens de se ser mais novo: reformas, saúde, acesso ao crédito. Esta história de tentar virar os pais contra os filhos e os filhos contra os pais mete mesmo nojo. Os vampiros não são os filhos, nem são os pais. São as empresas sem princípios, os abusos e a ganância generalizada.

Parece emergir a ideia de que estes jovens – que estão muito desiludidos porque as licenciaturas não lhes valeram um posto de trabalho – teriam feito uma aposta melhor se não tivessem procurado o ensino superior. Felizmente aparece o Reitor da Universidade de Coimbra, João Gabriel Silva, que lembra que “o desemprego é mais significativo entre os não licenciados”. – Pois é. Se os licenciados estão mal, os não licenciados estão bem na m… parece ser necessário lembrar também que a formação superior não serve só para ter um emprego, serve para a formação pessoal e para elevar o nível intelectual de um país. Como ficamos face ao resto do mundo? E falando em resto do mundo, sugere-se aos jovens recém-licenciados que vão para fora. Como se ir para fora não implique liquidez financeira, e esteja ao alcance de qualquer um.

Por fim aparece a crítica aos jovens “que não querem “sacrificar o sonho pelo possível” – querem mesmo convencer-nos que “isto” é o possível. E o “isto” não se esgota nos licenciados que não conseguem um emprego digno – nas áreas para as quais estudaram, ou noutras – “isto” chegou ao ponto a que chegou porque a maior parte do tecido empresarial português acha que a competitividade se consegue pagando o mínimo possível, escravizando pessoas com ordenados próximos ou por vezes abaixo dos ordenados mínimos. O que está mal é ser normal as empresas recorrerem a falsos recibos verdes e a estágios não remunerados para manter lucros obscenos e os ordenados e privilégios dos quadros superiores muito acima da média europeia. O que está mal é a corrupção e a exploração selvagem. Se não há trabalho na área para a qual os jovens estudaram, há-de haver noutra área qualquer, mas convém que paguem o trabalho, ou não? A competitividade consegue-se com um produto de qualidade, e isso não se consegue com empregados deprimidos que lutam para comprar comida no supermercado, nem com comboios de “estagiários” que se substituem uns aos outros sucessivamente, nunca ficando tempo suficiente para fazer o melhor pela empresa para a qual querem trabalhar. A verdade é que não os deixam trabalhar e os tratam abaixo de cão, porque há sempre outro estagiário que pode ficar com o lugar. O trabalho não será tão bom, mas serve para “tapar o buraco”. Não os deixam crescer como profissionais, e depois queixam-se da “falta de competitividade”.

Sou licenciada, estou nos quadros de uma empresa, e faço o que sempre quis fazer. Sou uma excepção. Mas não tenho a ilusão pretensiosa de que foi única e exclusivamente por lutar muito que consegui. Lutei muito, e sou boa no que faço, mas acima de tudo tive sorte. Antes disso fui muitos anos precária, e conheço profundamente a realidade. Aceitei trabalhos fora da área que me iam comprometendo para sempre o meu projecto de vida. Por isso, porque quero um futuro melhor para os meus filhos, e porque este é o meu País: vou à Manif. E tu?

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24 respostas a “É mais fácil lutar contra a ditadura do que contra a ditamole”

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  2. Vasco R diz:

    Como disse no meu blog e digo aqui: nada cai de para quedas. Três anos a estudar não é NADA. Ninguém começa por ser chefe, gerente ou director do quer que seja, tem que se começar por baixo.
    E sinceramente estou farto de ver estudantes na faculdade que nada querem fazer além de viver à conta dos pais, adormecidos, coitados, não sabem que um dia a fonte seca e vão perceber os motivos deste protesto.

    Como é que eu adivinho que este movimento vai acabar depois de dia 12? Lanço um desafio aos que o têm organizado: associem-se, liguem as AE das faculdades e escolas, dinamizem-nas, e a nós, façam a informação fluir, apartidária, sim, mas serão sempre aproveitados pelos gulosos da esquerda e mal vistos pelos sovinas da direita.

    Não lutem só até dia 12. Não desistam de nós.
    Eu, 24 anos… Com um ordenado de 180 euros, a viver com ajuda de amigos, com bom rendimento na faculdade, e com 90 euros de bolsa. 90!? Acham que isto está certo? Porque é que a SIC não me entrevistou a mim??? Geração muito lixada! Que quando chumbei o 12ºano tive que ir trabalhar, e no ano seguinte a reforma no ensino fez-me atrasar os estudos. A precariedade no emprego ajudou, sem me aceitarem estatutos de TE! Ao menos tinham noção do que uma pessoa tem de fazer hoje em dia para estudar. Eu tive que me endividar num empréstimo universitário!!!
    Vou lá estar, dia 12. E espero que continue. Os estudantes têm que participar mais activamente no país. É a única opção. São precisas novas ideias, cabeças frescas.

    Continuem a lutar. Não desistam de nós depois de dia 12!

  3. Vi diz:

    Para uma senhora licenciada à 30 atrás é bastante fácil dizer para lutarmos pelos os nossos sonhos, que não vão ser a crise e a péssima gestão deste país que nos vão impedir de termos para o que lutamos. À 30 anos atrás eram muito poucos os que tinham hipóteses de se formar no ensino superior, daí o acesso a empregos na área em que se tira a licenciatura ser bastante fácil e dou-lhe os parabéns por ter estado desempregada por opção, é uma pessoa de sorte por poder fazer esse tipo de opções. Se tivesse tirado uma licenciatura segundo o tratado de Bolonha, em que lhe é tirado o estágio curricular provavelmente entenderia a nossa revolta. Ora bem, fazem-se exames nacionais bastante acessiveis, para que o número de alunos a cursar no ensino superior seja elevado, impingem-nos uma educação em que sem um curso superior nunca teremos um bom futuro. Então, aí vamos nós rumo à universidade, e quando chegamos lá deparamo-nos com uma realidade para a qual o ensino secundário não nos preparou. A falta de cooperação entre o ministério da educação e o ministério do ensino superior é vergonhosa. Passamos três anos a estudar, a sacrificarmo-nos pelo tal futuro promissor que nos prometeram. Terminamos a licenciatura, e em muitos casos, não sabemos o que estamos aptos para fazer, porque, como disse anteriormente, nos foi tirado o estágio curricular. Resolvemos então ingrssar num mestrado para nos dar mais preparação para entrarmos no mercado de trabalho. Dois anos depois e terminado o mestrado, achamo-nos preparados para ingressar no mercado de trabalho e o que acontece é que, por vezes, somos demasiado qualificados para um emprego na nossa área. Mantemos a esperança de o conseguirmos, até que o desespero de não termos o nosso próprio dinheiro bate à porta e já nos vemos a fazer qualquer coisa.
    Esta é a realidade de muitos jovens no nosso país. Lutamos e fazemos sacrificios para ter a formação que nos exigem para tirar Portugal da cauda da Europa, mas depois ninguém está preparado para receber os milhares de licenciados que há. Estamos nesta situação, por causa da gestão vergonhosa dos anteriores governos deste país. Nós fizemos o que nos foi exigido, estudamos, fizemos a nossa formação. E agora somos tratados somos enxovalhados, por lutarmos por aquilo que nos foi prometido. Enxovalhados por pessoas que não sabem o que é viver à rasca.

  4. o vasco que tem a tal licenciatura em cinema é espectacular. “para já vou ficar por aqui” diz ele conformado e depois ri-se feito parvo. marabilha de exemplo e marabilha tambem de texto este escrito pela mentora do protesto. Que tristeza.
    ” a gente tira um curso, anda a matar a cabeça durante 3 anos” também muito bom…quem acha que aprender é sinónimo de matar a cabeça seria a minha primeira escolha para empregar, sem dúvida. se fosse aprender um ofício útil se calhar não matava a cabeça e já tinha emprego.

  5. johny diz:

    votem mais vezes no PS ou no PSD e isso resolve-se.

  6. Paulo Freitas diz:

    Só quero deixar o meu bitaite🙂

    Acabei em 2001 um curso em Biologia Marinha e Pescas, uma área que adoro mas na qual hoje em dia nada faço e como eu dezenas de colegas meus que se licenciaram no mesmo curso, os poucos que trabalham fazem-no com bolsas de investigação ad eternum que pouca ou nenhuma segurança lhes trazem e estão sujeitas a que falhe ou acabe os financiamentos para se verem na M###. Eu tomei a decisão de mandar às urtigas uma bolsa dessas pois cheguei a conclusão que nunca iria a lado nenhum e acabaria por ter de chegar aos 40 anos, sem familia a trabalhar precariamente.Resolvi apostar avançar para uma empresa própria com o meu colega de faculdade e sócio numa empresa imobiliára a ERA.
    O ponto onde quero chegar é que o que me revolta nisto tudo é o facto de existirem cursos que tem potencial para elevar o país e que deveriam ter saida, especialmente aqueles ligados a um dos maiores bens naturais que temos que é o mar, somos o país europeu com a maior zona económica exclusiva e a qual não exploramos convenientemente, somos um páis virado de costas para o mar e a história mostra-nos que é um erro o fazer, o nosso futuro está como esteve à mais de 500 anos nesse recurso!

    Tudo neste páis está feito para afundar as PME os empreendedores os Free thinkers, na realidade é um compadrio seguido umas politiquices nojentas onde o factor C é determinante em todos os contextos! Tenho uma amiga que está num Centro de Ciencia Viva com uma bolsa que supostamente duraria 6 anos, e vai a meio e neste momento vão terminar com ela pq o sr director tem uma sobrinha recem licenciada numa outra área q precisa de trabalho. Nada tenho contra esta rapariga mas é nojento ver que por causa de ser sobrinha de beltrano vai se despedir uma outra pessoa competente e experiente.

    O que está mal é que não temos lideres visionarios, apenas interesseiros à procura de riqueza as custas dos outros! Todos os dias largo milhares de euros para o estado em impostos, PEC, seguranças sociais, IRS, IRC Impostos de Selo, impostos disto, imposto daquilo para depois estes sacanas andarem armados em ricos a gasta-lo em TGVs, pontes autoestradas desnecessarias em vez de apostarem no desenvolvimento dos maiores recursos naturais deste pais, nomeadamente a massa critica e intelectual que caracteriza o portugues, temos muito talento neste país que é votado ao abandono e renegado para segundo plano pois é ignorado em detrimento de outros factores C.

    É bom que isto termine para que possamos crescer e sair deste buraco, de outro modo vamos abrir falencia e sair da europa e virar um pais do 4º mundo!

  7. IB diz:

    Tenho 33 anos, duas licenciaturas na área das ciências humanas e económicas em universidades públicas e tenho nove anos de tempo compacto no mercado de trabalho. Com todas as dificuldades que isso implica fui trabalhadora-estudante desde os 15 anos de idade, a trabalhar nas férias e muitas vezes a trabalhar e estudar simultaneamente. Nos últimos dois anos, após ter terminado a segunda licenciatura trabalhei uma média de 6 meses por ano, em trabalhos precários. Voltei para a casa dos meus pais, ao fim de estar 13 anos independente. Tenho adiado o investimento na minha vida pessoal e prole da conquista da estabilidade laboral que, percebo agora, tem sido inútil. Conheço mais algumas pessoas em situações muito semelhantes. Ao longo deste processo dei comigo a fazer maquilhagens no currículo e a desejar que não mo seja pedido e que possa só preencher uma pequena ficha de inscrição, porque porque para muitos trabalhos a que concorro, mesmo apenas com uma licenciatura já tenho excesso de qualificações e sei que por essa razão vou ser excluída. Que país é este que obriga as pessoas a esconderem as suas habilitações e competências para conseguirem um trabalho? Que faz as pessoas quase terem vergonha de se terem esforçado para vir a ter uma vida melhor? Uma boa parte do feedback, propostas e atitudes que tenho recebido do mercado de trabalho levam-me seriamente a duvidar da coerência e sanidade mental na mente das pessoas que as transmitem. Recentemente recebi uma proposta para dinamizar um projecto numa Câmara Municipal no qual teria que coordenar e motivar equipas de jovens e mobilizá-los a realizar voluntariado cívico de carácter ambiental. É um projecto interessante, mas para trabalhar em part-time (20 horas por semana), a receber 3,40euros à hora, o que dá um total mensal de 272 euros por mês. Já ganhei mais a trabalhar, também com horário de part-time a dar aulas de enriquecimento curricular, mas mesmo a recibo verde, o vencimento não ultrapassava os 300euros mensais. E este é apenas mais uma das atrocidades que se estão a realizar no mercado de trabalho quer no sector público, quer no sector privado. Claro que para aceitar estas condições de trabalho as pessoas têm que morar em casa dos pais. E, curiosamente, as pessoas estão tão desesperadas para se realizarem profissionalmente que vão aceitando, quando podem. Posso continuar a falar na quantidade de serviços em Psicologia que estão a ser assegurados em regime de voluntariado, não protegendo os utentes nem sequer os profissionais, que é uma realidade que conheço bem. E vou ainda mencionar as empresas de trabalho temporário que já se dão ao luxo de contratar estagiários para fazer recrutamento e selecção. A lista de situações semelhantes é infinita e a inspecção geral do trabalho parece ter deixado de existir. A realidade é que estão a vender cada vez mais a ideia de que as pessoas têm que pagar para trabalhar. Chama-se a toda esta campanha contra os licenciados e estas novas gerações, dividir para reinar, porque enquanto as pessoas andam discutir umas com as outras e a projectarem as culpas entre si, o status quo perpetua-se e os poderes instituídos continuam a alimentar-se da miséria humana. Tenho ouvido comentários por parte de figuras públicas e pessoas bem estabelecidas profissionalmente que me deixam estupefacta e a duvidar seriamente se vivemos no mesmo país. Então agora responsabilizam-se gerações que têm já um futuro hipotecado, sem nunca terem tido verdadeiramente a oportunidade de trabalhar em posições de decisão e influencia no país, pelas consequências de anos e anos de má gestão da vida politica e económica?????????????? Felizmente quanto mais testemunhos leio, mais tenho a certeza de que realmente não fui eu que perdi a sanidade mental, mas a sociedade portuguesa perdeu, nos últimos tempos a noção do que significa dignidade humana.
    Estou apenas a partilhar mais um testemunho porque considero importante que cada vez mais as pessoas troquem experiências e percebam que o que está errado é a corrupção, a hipocrisia, o esbanjamento e endividamento desnecessário, a má gestão da vida social e económica, a exploração e a manipulação sem escrúpulos das fragilidades das pessoas que lutam e sustentam este país… Em relação ao comentário neste blog, subscrevo na integra…

  8. Emilia diz:

    Ora bem, não sendo meu hábito entrar nestes debates, hoje senti mesmo vontade de o fazer e não porque concorde ou discorde do que aqui vem sendo expresso mas porque me parece que o motivo da manifestação está a ser um bocado desvirtuado.
    Fala-se de ódio da parte da comunicação social mas destila-se o mesmo em relação aos sistemas e corpos empresariais – então o que estamos a fazer?! a aumentar a vibração de uma energia tão pouco digna? Que tal a manifestação não ser um destilar de raivas, medos, ódios mas apenas e só, uma chamada de atenção para o que está mal, começando pelos senhores do governo, sem dúvida, mas todas as outras situações que nasceram muitas delas de óptimas intenções mas que se ficaram apenas por aí ou que se foram escudando e escondendo atrás de interesses e… vou a manifestação não para ser o mais 1 que fará o milhão proposto mas porque acredito que as nossas verdades devem ser expressas pois se não o forem não servirão para nada mas não vou para fazer cair o governo ou para mudar o mundo e sabem porquê porque se este governo cair não conheço ninguém (dentro dos partidos chamados políticos)suficientemente bem formado para o substituir e depois porque mudar o mundo de fora para dentro é impossível. O mundo somos nós, cada um de nós, e enquanto não nos reconhecermos como tal, não reconhecermos as nossas capacidades tenderemos sempre a esconder-nos no que “está mal” lá fora (leia-se o governo, o sistema, a sociedade, o tempo e por aí ). “Sê a mudança que queres ver no Mundo” disse Gandhi e não poderia ter dito melhor!
    Nos comentários fala-se muiito em licenciaturas, licenciaturas, licenciaturas… e, quanto a mim, aí está outro ponto muito fraco na intenção da manifestação. Não tenho nada contra o ensino superior, bem pelo contrário, sou 500% a favor da educação e mais ainda da formação pessoal mas que ninguém se escude atrás dos respectivos cursos para destilar mau estar. O desemprego é generalizado não em Portugal mas no mundo inteiro. As tais bases que começaram com muito boas intenções estão completamente podres e ameaçam, felizmente, ruir dentro de muito pouco tempo. Para substituir o que está em estado de decomposição serão necessárias pessoas com muito boa formação que não se fiquem só nas intenções e não se deixem corromper pelo dinheiro fácil ganho à custa de tudo e todos mas de pessoas sólidas, firmes nas suas verdades e que não se limitem a aplicar o “pouco” que aprenderam nos respectivos cursos mas que trabalhem na valorização do Todo a que pertencem pois só assim se poderão valorizar pessoalmente.
    Fala-se também muito em competição e competitividade, não vou gastar tempo sobre isso, aconselho-vos apenas a meditarem um pouquinho sobre essas palavras e talvez entendam o que querem dizer e o que têm de errado (e certo).
    Claro que com todo este palavreado já perceberam que não acabei de sair agora da universidade e não procuro o 1º emprego, longe disso, mas também fiz o meu curso e percebi que só aprendi realmente depois de sair ou melhor quando entrei no mercado de trabalho, sem dúvida a melhor escola. Trabalhei durante mais de 20 anos na área para que me tinha formado e, com 40 anos, no topo da carreira percebi que a tal competitividade estava a corroer todo o sistema e saí. Saí e comecei uma vida nova, totalmente nova porque a própria vida me deu um empurrão para que assim fosse e dei-me muito bem, e com 54 anos voltei a revirar tudo e continuo a dar-me muito bem fazendo coisas que não têm nada a ver com o que estudei e para o que me “formei”. Nunca estive no desemprego embora estivesse desempregada durante algum tempo por vontade própria, tempo necessário para me reconhecer e saber o que realmente queria da vida, não do que a vida me desse ou que poderia encontrar no sistema em que vivia, mas daquilo que eu queria realmente que fosse a minha Vida ,por isso o que faço me preenche a todos os níveis. Vai longo este comentário mas o que me levou a fase-lo foi a vontade de incentivar todos a não se “pendurarem” em nada nem em ninguém, a olharem bem para o fundo de vocês mesmos para perceberem o que vos faria felizes, só isso, o que vos faria felizes e corram atrás desse sonho, cursos, famílias, governos e tudo o mais à parte, apenas o que vos fariam felizes e se forem mesmo atrás do sonho acreditem que o conseguirão concretizar faça o tempo que fizer, hajam os governos/sistemas que houverem porque estarão bem convosco, não precisarão de competir com ninguém e de certo que estarão a engrandecer a humanidade.
    Sejam felizes!

    • Al Wragg diz:

      “energia tão pouco digna”? o que é isso de energia digna? energia digna é aquela que não tem opositores, que não se dirige a ninguém em particular? mas, se alguém nos dá um murro, faremos uma manifestação indigna se for contra esse alguém, mas faremos uma manifestação digna se for contra os murros? é isso?

      “sê a mudança que queres ver no mundo”. certíssimo. concordo plenamente. mas já não concordo que se diga que mudar o mundo de fora para dentro é impossível. pode ser melhor ou pior em relação aos critérios que se entenda… mas impossível não. o mundo muda sempre, de qualquer maneira, e tudo conta. muito ou pouco, mas conta. a Emília vai à manifestação e não tem intenção de mudar o mundo. mas ao ir à manifestação vai mudar o mundo, precisamente porque é por aí, pela mudança do seu próprio mundo, que a mudança do mundo começa, como a própria Emília diz.

      não conhece ninguém suficientemente bem preparado para substituir o governo? mas porquê? para fazer parte do governo é preciso ser super-homem, é isso?… em todos os sítios por onde tenho passado ao longo da vida (e acredite que numa vida que não é tão longa como a sua já são uma data de sítios… são vantagens da precariedade) as pessoas fartam-se de se queixar dos governantes, dos directores, dos presidentes… mas quando alguém propõe pô-los de lá para fora logo todos advertem “pois, mas se for outro às tantas ainda é pior” e ainda alguns acrescentam “ao menos com este sabemos com o que contamos”. e na verdade, os governantes, directores e presidentes são uns craques no telefone, mas a Bélgica está sem governo há 9 meses e o país está normalíssimo da costa. é assim tão difícil governar?… (faz-me lembrar o poema de Brecht intitulado “dificuldade de governar”) eu às vezes penso e sinto, muito sinceramente, que o que é mesmo difícil é fazer pior figura que estes governantes, directores e presidentes… as pessoas têm sempre medo de mudar, de experimentar o diferente, e arranjam sempre forma de justificar o atavismo.

      fala-se muito em licenciaturas, licenciaturas, licenciaturas… pois concordo plenamente que não se devia falar tanto disso. os problemas são mais transversais, como diz e bem. no entanto, quando diz que “serão necessárias pessoas com muito boa formação” sinto que está a ser um pouco enigmática… pessoas com muito boa formação para fazer o quê concretamente? quando? como?

      o apelo à meditação sobre a competição e a competitividade. concordo plenamente. mas gostava de saber o que vê de certo na competição entre seres humanos. eu gosto de competir com os meus amigos nos jogos com ou sem bola, nas corridas, nas palavras… mas no final eles são meus amigos e comem da minha comida. na economia é “teams” para aqui, “cooperação” para ali, “sinergias” para acolá, mas ninguém partilha a comida com ninguém. eu preferia cooperar no essencial e competir apenas no acessório. que tal?

      sobre o que se aprende na vida e o que se aprende na escola. eu posso dizer, por experiência própria, que os cursos não são todos iguais (dentro da mesma área e em áreas distintas), e a nossa atitude perante eles difere muito. às vezes é possível aprender muito num curso…

      “percebi que a tal competitividade estava a corroer todo o sistema e saí”. bom, com ou sem empurrão, os meus parabéns, sem qualquer espécie de ironia.

      e mais parabéns pela forma como incentiva as pessoas a correr atrás dos sonhos (e já agora, que sejam bons sonhos!). novamente sem qualquer ironia. eu quero acreditar nas suas palavras, quando diz que se alcançaremos os nossos sonhos se deles não desistirmos, aconteça o que acontecer. quero acreditar, porque continuo a correr atrás dos meus!🙂

      mas não posso colocar uma nota realista acerca disso. já vi não muitas, que não tenho assim tanto tempo de vida, mas algumas pessoas a morrerem sem terem chegado lá. e vejo, agora sim, um ror de pessoas que bem que se podem esforçar que pelo andar da carruagem nunca lá chegarão. não é por o sonho de algumas pessoas se concretizar quando elas verdadeiramente se esforçam que isso passa a ser uma regra para todas. sobretudo porque há pessoas que não têm boas condições para isso. se alguém não é assim tão inteligente, com que cara é que dizemos a essa pessoa que tem de ser inteligente, e bem formada e astuta e tudo o mais?

      digo isto não para terminar numa nota pessimista, mas para, com os pés bem na terra e os olhos na realidade, chamar a atenção para a necessidade de sermos mais cooperativos e solidários. um mundo mais cooperativo e mais solidário também é um bom sonho por que lutar… será que se me esforçar muito vou conseguir chegar lá?🙂

      • Gostei muito, muito, muito deste último post do Al Wragg.

        Eu acredito que devemos acreditar que uma mudança positiva pode e vai acontecer; é também esse acreditar, analisar, procurar soluções criativas, criar alternativas, pensar, que nos permite sentir que o poder está em nós e não em formas de autoridade.

        Concordo com a afirmação de que não devemos competir no essencial, embora veja aí um ponto importante e um desafio para se construir uma nova realidade – a competição é sempre promovida e exaltada e, na verdade, não vejo quase nada de bom nela como é entendida e aplicada. Um mundo não competitivo é altamente utópico mas pode ser um óptimo ponto de partida para idealizarmos algo. Talvez o conceito de competitividade se possa repensar porque , da mesma forma, custa-me imaginar um mundo sem ela. A competição não tem que passar por ganhos ou perdas, pela imposição de pessoas bem sucedidas ou fracassadas. Talvez possamos imaginar competitividade em que todos ficam a ganhar.

        Tenho quase a certeza que uma mudança destas só poderia passar pela arte enquanto comunicação de pensamento (como entendido por Platão, linguagem interna) útil (para o desenvolvimento/evolução social).

  9. Maria diz:

    Concordo com este comentário da Ana, pois também eu fiquei chocada com a abordagem da SIC à questão. Os exemplos encontrados não remetem para a dura realidade desta “geração à rasca”, a não ser o da designer a recibos verdes e mal paga. Acredito que a SIC e as empresas da comunicação social em geral, devem ter uma série de “colaboradores” a recibo com histórias de precariedade e injustiça bem mais elucidativas do que as que foram apresentadas na reportagem. A sensação que fica é que pretendem minimizar e ridicularizar a situação. Como já é habitual a comunicação social subestima sempre a inteligência de toda a gente! tenho 35 anos, sou pós-graduada e trabalhei sempre na minha área de formação a recibos verdes e com remuneração muito abaixo da tabela e em regime temporário.
    Vou ao protesto no dia 12 de Março porque espero há muito por este dia!

  10. Romeu diz:

    O que me revolta mais é sermos aquela classe do meio… temos habilitações a mais em alguns casos, e noutros casos falta-nos um mestrado, ou a profissionalização ou um MBA….

  11. Não se fazem estudos sobre a empregabilidade após determinados cursos porque não interessa tirar quem tem o seu poleiro confortável e que depois até se for preciso vem dar uma de comentador na TV ou no Jornal atacando os licenciados deste país!
    Em vez disso dá-se a ideia de que somos todos uns putos mimados, a chular os pais, só porque sim! Mas por trás vão vivendo às custas de quem estuda e lhes paga o salário! Ai não, enganei-me, pelos vistos nós temos ensino universitário gratuito!

  12. Armando Cunha diz:

    Não se deixem desanimar por comentários venenosos de gente mal intencionada que já está bem na vida e não se importa de ver os outros a serem escravizados.
    Não sou da geração à rasca, e felizmente já não sou precário. No entanto, sei dar valor a pessoas como vocês. Como professor (que nos dias que correm é um escravo da burocracia) sei que temos que respeitar e incentivar pessoas que lutam pelos seus direitos e pelo bem do país. Em Março estarei lá.

  13. JML diz:

    Boa sorte! Provem que não são só chorões e desgraçadinhos “escravos” (que sabem sobre isso, afinal) que é que toda a gente acha. Lutem por aquilo que acreditam e provem ao resto da malta que não são só putos desfazados da realidade. Eu quero ser convencido por vocês. Era um bom sinal para o futuro deste país.

  14. João Ferreira diz:

    Desde já os meus Parabéns pela iniciativa deste blog! Um espaço onde podemos falar e discutir ideias de intelecto que realmente são do interesse de todos nós e que deveriam de ser de todo o país!
    A situação do desemprego dos jovens, sobretudo na sua área de formação começa muito antes de chegarmos ao mercado de trabalho ou até mesmo de terminarmos os cursos. Começa sim, no início de cada ano lectivo e sempre que o Ministério da educação se reúne com os responsáveis das instituições de ensino para discutirem os programas e os (novos) cursos a administrar nesse ano. Por que é que o Ministério, ao ver a taxa de desemprego a aumentar entre os recém-licenciados e mesmo os que já terminaram à já algum tempo, continua a beneficiar as instituições de ensino deixando-as todos os anos abrir novos cursos ou manter outros que no final de três ou cinco anos despejará para o mercado do desemprego mais umas centenas de milhar de licenciados já rotulados para a precariedade?! Por que é que não se efectua um estudo a nível nacional, realizado todos os anos lectivos, para se avaliar quais são realmente os cursos que interessam, e o mesmo digo das disciplinas dentro dos próprios cursos, e se aprova somente aqueles (as) que são de teor prático e concretizáveis para o mercado de trabalho existente?!
    Pois é, ao invés disso aprovam ainda mais cursos para que as instituições de ensino possam ter mais alunos a entrar e a pagar, não nos esqueçamos, para obterem mais lucros e ao mesmo tempo o Estado estar a receber a sua cota parte nos impostos que os nosso pais suportam!
    Não estou a dizer para cortarem o acesso ao ensino superior aos alunos. Só digo que deve ser feita uma selecção meditada dos cursos que realmente têm saída ou que realmente o país carece de necessidade. mais não seja, cursos que também sejam concretizáveis e necessários não só em Portugal, mas também na Europa, possibilitando aos jovens uma colocação nos estrangeiro, deixando assim uma porta sempre aberta de oportunidade mesmo que não a utilizem.
    Antigamente os nossos pais e avós não iam estudar ou não continuavam os estudos por que não havia condições ou dinheiro para isso. Iam antes trabalhar nos campos mas mesmo assim grande parte do tecido empresarial português foi construído e continua a ser gerido por pessoas com a 4.ª classe.
    Actualmente, temos todas as condições, os nossos pais incentivam-nos a estudar e tirar a melhor formação possível, não obstante somos estudantes durante 20, 25 anos e ao fim desse tempo nem sequer para os campos trabalhar vamos e somos desempregados a olhar por um canudo! Se antigamente ir trabalhar era considerado precariedade então nos dias que correm não sei que nome dar ao que nos está a acontecer!

    Isto tudo pode mudar mas para isso é preciso fazer muito barulho e não são manifestações que nos levam lá. São um caminho mas não completam o trabalho. Para que alguma coisa seja realment mudada é preciso uma revolução e o tema dos Deolinda “Que Parva que Eu” é a nossa “Grande Vila Morena”.

  15. rita maria diz:

    Muito bom, muito bom mesmo.

  16. Maia diz:

    Este texto diz tudo o que me vai na alma.
    Também vou à manifestação.

    P.S. – espero que a cobertura mediática não seja feita à imagem da reportagem “Geração à Rasca” da SIC. Meteu nojo.

  17. o que é mais assustador nesta situação toda, para além da precariedade é o papel da comunicação social nesta história toda!
    E o facto de existir muita gente contra a geração com qualificações..é Inequalificável as culpas que nos atiram para cima só porque temos uma LICENCIATURA!

    • Soraia diz:

      Já começo a duvidar da minha sanidade mental… será que andei estes anos todos noutro planeta? Então mas não nos vendem a vida toda que o importante é estudar tirar um curso superior para aumentar as qualificações e a competitividade do país? Que tínhamos e temos um enorme índice de abandono escolar e que isso contribui para nos mantermos incessantemente na cauda da Europa? Então e agora os licenciados que estudarão e fizeram o que o país gritava aos quatro ventos durante as últimas décadas, na esperança de contribuir com trabalho qualificado para o avanço da nação é que são acusados de não querer trabalhar, de estar a espera de tachos e de andar a viver à conta dos pais?
      Sou licenciada há 2 anos, fui trabalhadora/estudante praticamente durante todo o tempo que fiz a licenciatura e terminei-a nos 5 anos previstos, trabalhei muito e fiz imensos esforços para terminar a minha formação. Desde então trabalhei 1 ano num restaurante de fastfood do qual saí devido a uma oferta “tentadora e irrecusável” mas infelizmente ao fim de 5 meses, contrato assinado nem vê-lo e já tinha 2 salários em atraso e mais 500 euros de despesas de deslocação por pagar. Vejo-me novamente no desemprego devido a patrões sem escrúpulos que prometem mundos e fundo e não se ensaiam nada de fazer coisas destas

      • Romeu Monteiro diz:

        Soraia, uma licenciada escrever o passado de “estudar” como “estudarão” é muito mau… e mesmo sem uma licenciatura não se devia dar erros desses…

  18. Ana diz:

    Ainda bem que há quem pense como tu! Fazes bem, eu não era precária e graças ao PEC… agora sou!
    Todos temos de lutar, não só quem se encontra nessa situação.

  19. Luis Moreira diz:

    Já está publicado no estrolabio.blos.sapo.pt

  20. “Há algo de profundamente errado na maneira como hoje vivemos” – Comandante Guélas

    RIAPA presente no dia 12 de Março!

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